João Sevilhano à conversa com a MaisPSI

Possui um currículo considerável, experiência comprovada em várias componentes da Psicologia e não só, uma formação sólida e diversificada com um equilíbrio notável entre protagonismo, humildade e altruísmo. Como analisa o seu percurso?

Antes de mais, agradeço muito o convite para poder partilhar convosco e com os utilizadores da MaisPsi algumas ideias.

Recebo generosamente as palavras que introduzem esta vossa primeira pergunta, que me fizeram sentir, confesso, um pouco embaraçado.

O meu percurso tem sido pautado por uma curiosidade genuína. Procuro adoptar uma postura constante de interesse, envolvimento e investimento autênticos, enquanto me esforço por manter uma distância suficiente que me permita criticar constantemente o que faço, que me possibilite não dar por garantidas as práticas vigentes e o status quo dos contextos onde me movo. Por vezes, sinto como difícil a manutenção de um equilíbrio entre a proximidade afectiva e uma análise mais distante ou crítica. É uma espécie de “cepticismo de mente aberta”. Contudo, tenho aprendido a viver melhor com esta característica, ou forma de ser/estar, a perceber que os benefícios suplantam os custos e que estes últimos fazem parte de um processo contínuo de aprendizagem. Por outro lado, acredito, ou gosto de acreditar, pelo menos, que esta postura me permite trabalhar em contextos diversos porque, de forma permanente, faço a crítica e a procuro a fundamentação dos meus juízos e preconceitos.

No fundo, busco retirar sempre partido das experiências em que me envolvo ou vejo envolvido, sabendo que, muitas vezes, esta atitude me traz frustração e sofrimento. Este resultado é inevitável, faz parte do processo de aprendizagem.

Por outro lado, há um propósito muito claro, que é também muito antigo em mim, que é o acrescentar valor, de alguma forma. Pode parecer pretensioso, mas trabalho para fazer a diferença, para mostrar novos pontos de vista e novos ângulos de abordagem. Pode intuir-se aqui algo com espírito altruísta, mas, no fundo, há uma motivação pessoal evidente - enriquecer-me com esse processo. Aprendo muito a ajudar a aprender.

Como surgiu o coaching na sua vida?

O coaching surgiu de forma imprevista e de um contexto também ele inesperado. Depois da minha licenciatura em Psicologia, onde completei o estágio curricular em ambiente hospitalar, a minha primeira experiência profissional foi numa área completamente diferente. Trabalhei durante um ano no departamento de recursos humanos de uma grande empresa portuguesa. Foi uma experiência penosa, porque era muito diferente do que tinha idealizado para o meu percurso, além das questões que emergiram da confrontação com uma mova realidade, onde se incluiu a entrada numa fase nova da vida. Por outro lado, foi uma experiência extremamente rica a vários níveis. Entendi bem, creio, como funciona uma grande organização, uma grande empresa, tomei contacto com as questões que as pessoas nas empresas se debatem e com as dificuldades que as organizações têm na integração, satisfação e mobilização das suas pessoas. Lembro-me muitas vezes de algo que um amigo de família, uma pessoa que considero brilhante, me disse quando tive de escolher entre o ramo organizacional ou a via clínica na minha licenciatura: “Vai para clínica. Mesmo que trabalhes noutro contexto, entenderes-te e entenderes as pessoas será sempre uma vantagem”. Aqui, mesmo antes de ter concluído o curso e de ter começado a trabalhar, comecei a olhar para a psicologia, nomeadamente a vertente clínica, como algo com alcance para além da “clínica”.

Depois da experiência “agridoce” de trabalhar naquele contexto, mesmo com perspectivas “interessantes” e um convite concreto para continuar ali a trabalhar, decidi sair e investir o meu tempo e energia a criar condições para trabalhar em contexto clínico. Depois de alguns meses, muitas entrevistas, muitas portas batidas, muitas reuniões, alguns projectos desenhados e apresentados (todos eles sem resposta até hoje!), comecei a perceber que seria um desperdício deixar de fora a experiência que tinha tido.

Durante estes meses decidi também a minha iniciar a minha psicanálise.

O coaching surge em família. Nesse período, a Escola Europeia de Coaching (EEC) estava a ser lançada em Portugal por um grupo de colegas onde se incluía o meu pai. Conseguiram-me explicar o que era o coaching e, na altura, idealizei que poderia ser uma via interessante para aplicar as minhas competências e vontade de introduzir a psicologia (clínica) no mundo organizacional, que era, e continua a ser, muito impermeável à sua introdução e aplicação.

Assim foi o início. Contudo, a minha perspectiva mudou muito nestes oito anos.

Dado o paradigma que atravessamos de “crise” nos demais setores da sociedade, qual a importância e vantagens do Coaching para o indivíduo e organizações?

A minha perspectiva sobre este tema pode ser vista como ambivalente ou mesmo paradoxal, admito. Acredito que a grande “vantagem” do coaching contém também a sua maior debilidade.

O coaching surge, do ponto de vista histórico, de forma muito resumida, como uma resposta de inspiração humanista e eclética ao desenvolvimento humano; procurava e procura a conjugação de ideologias, teorias e técnicas que visam a aprendizagem numa perspectiva construtiva, virada para o “desenho” do futuro e para a acção.

Nos dias que correm - que primam pelo imediatismo, em que é evidente o desejo, muitas vezes cego, de obter resultados rápidos, eficazes e pretensamente duradouros - o coaching aparece como uma solução bastante sedutora e aliciante, já que apresenta uma promessa de mudanças significativas, num espaço de tempo curto e com resultados visíveis. Por outro lado, o coaching sendo uma abordagem que procura “devolver” e/ou desenvolver a noção de responsabilidade ao indivíduo, tornando-se o próprio no “autor, encenador e protagonista” do seu percurso de vida (claramente de inspiração fenomenológica e existencialista, pelo menos na abordagem teórico-técnica que sigo), parece também ligar-se facilmente a outro dos paradigmas vigentes na sociedade e cultura actuais que é o de um “regresso” a uma visão antropocêntrica que, por sua vez, alimenta um contexto que prima pelos estímulo e valorização do individualismo e do narcisismo.

É aqui que, julgo, se encontram algumas das limitações e riscos do coaching. Cada vez mais me custa a acreditar que as soluções para os problemas existentes hoje, aos níveis civilizacional, cultura, social e individual, possam ser encontradas por práticas como o coaching. Encontro até aspectos contraditórios na proposta que o coaching apresenta. Por um lado, como referi anteriormente, procura “humanizar” o desenvolvimento e aprendizagem. Por outro, associa-se facilmente ao paradigma, que costumo chamar de “eficácia, eficiência, produtividade, felicidade e lucro”, muito evidente nos contextos político e organizacional, entre outros, em que é dada mais relevância e importância aos aspectos quantitativos e tangíveis e se releva para segundo plano as dimensões qualitativas e subjectivas da natureza humana.

Há ainda a questão do ecletismo teórico-técnico. O coaching, segundo o meu ponto de vista, não tem um corpo de conhecimento próprio e, por isso, as técnicas utilizadas resultam de uma mistura de influências. Esta abertura e esta flexibilidade permitiriam, em teoria, uma adaptação mais personalizada a cada caso, livre de modelos teóricos e de directrizes técnicas rígidas e fundamentalistas. Porém, na prática, é uma questão muito difícil, para não dizer impossível, de resolver. A falta de limites, ou a ausência de fundamentos epistemológicos sólidos, deixa em cada coach a responsabilidade/dever de os encontrar e de os ter em consideração, de forma consistente e séria, na sua prática profissional.

Ligada ao ponto anterior está a questão da regulação da actividade. Hoje assiste-se a uma banalização da palavra “coaching” e à proliferação de programas de formação e entidades certificadoras. Embora reconheça que o mercado esteja mais capaz de entender o que é e para que serve um coach, a diversidade de abordagens, perspectivas e práticas é tão díspar que deixa qualquer potencial cliente confuso. Eu próprio, tenho de confessar, que, ainda hoje, tenho de ter um papel pedagógico no que toca a explicar o que é coaching. É muito difícil de encontrar consensos entre colegas e as entidades que procuram regular ou providenciar directrizes para uma auto-regulação são muitas vezes encurraladas por outro tipo de interesses. Imagino que para os leitores que são psicólogos seja fácil de encontrar aqui uma ponte com o que acontece na psicologia…

Contudo, continuo a acreditar que o coaching, quando enquadrado em determinados limites, pode ser um veículo muito útil e eficaz. Defendo que tem de se ser mais realista e objectivo no que diz respeito às promessas que se fazem em relação a uma abordagem como esta.

Não creio que o coaching tenha robustez e sofisticação suficientes para poder ser adoptado como uma “filosofia de vida” nem como um “corpo de conhecimento”. No entanto, a maior mais-valia que reconheço no coaching é a procura de integração de várias fontes de saber, que se reflectem numa atitude e postura particulares de quem pratica esta actividade.

Poderia associar aqui outras ideias mas termino esta reflexão a dizer que, cada vez mais estou convicto, os factores determinantes para o sucesso de uma intervenção de um coach encontrar-se-ão na sua qualidade técnica, nos seus conhecimentos teóricos (continua a espantar-me a quantidade de coaches que não conhecem a história da actividade que praticam) e, sobretudo, na sua qualidade humana.

Concilia profissionalmente a Prática Clínica e o Coaching? Existe uma relação direta ou estamos a falar de práticas e metodologias divergentes?

Esta é uma pergunta que me fazem muitas vezes. A minha resposta tem-se tornado progressivamente mais simples: na minha opinião, são práticas e metodologias diferentes, com âmbitos e propósitos distintos, que estão inevitavelmente ligadas. Não são, contudo, comparáveis.

Creio que valerá a pena explicar este ponto de vista.

Começo por dizer que tenho tido a oportunidade de conversar sobre coaching com psicólogos e com não-psicólogos em contextos diversos (formação em coaching, em contexto académico na área da psicologia e noutras, grupos de pessoas provenientes de empresas e de outros tipos de organizações…). Esta experiência tem-me permitido observar as reacções iniciais destes dois grupos de pessoas e identificar duas tendências. Correndo o risco da generalização, os psicólogos reagem habitualmente com expressões do género “mas isso (coaching) já nós fazemos”. Os não-psicólogos distinguem o coaching da psicologia com argumentos como: “aqui não se tratam patologias” ou “isto é virado para o futuro e para a acção” ou ainda “aqui não se procura resolver as causas mas sim desenhar as soluções”. Creio que ambas as reacções/expressões têm sentido e, simultaneamente, não fazem sentido algum.

Eu consigo empatizar e simpatizar com os colegas psicólogos que sentem uma espécie de “revolta” ou indignação em relação ao coaching e aos coaches. De facto, os coaches e o coaching vieram ocupar um espaço onde já “viviam” a psicologia e a psicoterapia (também a psiquiatria, mas não entrarei por aqui). Mas, na verdade, este espaço é partilhado também com videntes, curandeiros, gurus, astrólogos, oradores motivacionais, etc.*

Ainda na linha da ideia anterior, verifico também que o coaching se torna uma área atractiva para muitas pessoas poderem “brincar à psicologia”, como ouvi de vários colegas psicólogos, sem terem de passar pelo processo de se formarem como profissionais da área e/ou não terem de se sujeitar à complexidade e ao investimento incessante que o estudo, a investigação, a intervenção e a compreensão da psyché humana implicam.

Detecto igualmente uma ideia, quanto a mim errada, que coloca o coaching como uma espécie de alternativa light à psicoterapia. Aliás, eu próprio tive e tenho algumas pessoas em psicoterapia, e encaminhei outras para colegas, que procuravam coaching e não um acompanhamento psicoterapêutico, mas que, de forma clara, era esta última abordagem a mais adequada para o seu caso. Inclusive, já tive pedidos de pessoas que queriam experimentar um processo de coaching, exactamente porque tinham passado por uma experiência psicoterapêutica cujos resultados tinham sido considerados insatisfatórios ou mesmo desastrosos. Por outro lado, também tenho conhecimento de pessoas que seguiram para psicoterapia no decurso de processos de coaching.

Tenho tido a oportunidade de acompanhar muitos psicólogos e psicoterapeutas que se querem tornar coaches, exactamente para aumentarem a sua oferta, aderirem à “moda” ou enriquecer-se enquanto profissionais. Curioso é que as pessoas formadas em psicologia, o mesmo se passou comigo, encontram dificuldades específicas no percurso de aprendizagem para se tornarem coaches. Esta dificuldade pode traduzir-se por uma maior resistência ao abandono dos paradigmas teórico-práticos que trazem consigo. Na prática, isto significa que as semelhanças e pontos de contacto que existem entre as duas abordagens são, ao mesmo tempo, zonas de difícil integração e acomodação.

Tem sido evidente também que o coaching serve também como um escape para o estigma ainda associado às áreas “psi”. No coaching pode criar-se a ilusão de que se podem ajudar as pessoas nos seus percursos de aprendizagem e mudança sem grande trabalho, como se as coisas acontecessem pela força do “querer”, pela insistência e persistência apenas. Desta feita, nalguns casos, torna-se numa via que procura evitar ou contornar o medo da psicopatologia: “psicólogos, psicoterapeutas ou psiquiatras são para pessoas com problemas. Ao consultar um coach não tenho problemas mas sim desafios”. Uma das críticas que faço ao mundo do coaching é a busca por explicações e receitas superficiais com a pretensão de resolver temas muitos complexos. Embora reconheça o valor da simplicidade, algo que considero extremamente complexo, vejo também que em muitas situações se encontra antes um simplismo, uma superficialidade e uma facilidade que não se coadunam com a complexidade da natureza humana.

Não creio que sejam abordagens e metodologias divergentes, mas são certamente diferentes. Mais, acredito que os coaches, psicólogos ou não, terão de saber explicar essa diferença de forma bem fundamentada.

Como carateriza a Saúde Mental em Portugal?

Creio que há ainda um longo caminho a percorrer. Não creio que este seja um caminho exclusivo ao nosso país, mas em Portugal, concretamente vejo ainda que há muito que fazer e muitos paradigmas a mudar. Continua a surpreender-me a excessiva oferta de cursos de psicologia e o número de psicólogos a serem formados todos os anos. Por outro lado, os profissionais enquadrados no SNS estão sobrecarregados e raras vezes têm os recursos necessários e/ou reconhecimento que seria justo.

Continua a desgostar-me uma “guerra surda” entre os vários profissionais “psi” em que cada facção, escola e abordagem luta para se afirmar como a mais correcta, a mais eficaz ou a detentora da “verdade” sobre o funcionamento humano. Creio que a complementaridade, a interdisciplinaridade e o necessário abandono de posturas sectárias e fundamentalistas são essenciais.

Continuo a verificar, com pena, que o estigma associado à psicopatologia, lato sensu, deixa as suas marcas e limitações nos profissionais, nos serviços, públicos e privados, e em toda as áreas da sociedade. É quase como uma “descriminação” que se observa entre a saúde física e a saúde psíquica. O paradigma quantitativo têm-se sobreposto e tem sido sobrevalorizado em relação a uma abordagem quantitativa, que contemple a ambivalência, a incerteza e a ambiguidade, próprias da natureza humana.

Na sua opinião o que falta à Psicologia?

Há algum tempo escrevi um texto, “a brincar a sério”, sobre este assunto. Creio que existem “muitas Psicologias”, o que torna difícil a minha resposta. Porém, se me esforçar para olhar para a Psicologia como uma área independente do saber, chego à ideia de que o que faltará são aspectos como os seguintes:

  • Uma maior abertura para a conversação entre as diversas “escolas” e abordagens;
  • Uma melhor integração entre a “arte” e a “ciência” da psicologia;
  • Uma desvinculação do modelo médico, assumindo uma especificidade e encontrando novas pontes com abordagens complementares;
  • Uma melhor integração de abordagens epistemológicas distintas;
  • Uma ligação mais próxima à Filosofia
  • ...

Ao olhar para a lista acima, apercebo-me que o penso que falta à Psicologia não se cinge apenas a esta disciplina. Creio que nos faltam algumas evoluções enquanto espécie. A criação de diálogos mais ricos, profundos e profícuos entre as diversas áreas do saber impõe-se. A valorização dos aspectos qualitativos, subjectivos e afectivos é fundamental para compensar a visão quantitativa e economicista que está de tal forma impregnada que se estende à compreensão do ser humano enquanto tal.

Como avalia a MaisPSI?

Congratulo a MaisPsi pela abrangência e intenção de reunir num portal recursos e informações úteis tanto para psicólogos como para qualquer pessoa que queira usufruir do contacto com esta disciplina, nas suas múltiplas vertentes. Vislumbro um grande desafio pela frente para a MaisPsi. Ficam os meus votos de muito sucesso para o projecto.

Como se perspetiva o futuro de João Sevilhano?

Neste momento, olho para o meu futuro com entusiasmo e tranquilidade. Gostaria de continuar a fazer o que faço, terminar a minha formação como psicanalista. Acredito que o pensamento psicanalítico tem muitos aplicações, nomeadamente em contextos onde não tem sido considerado nem utilizado. Acredito que continuarei ligado às organizações, que trabalharei com as empresas e com as suas pessoas, ajudando-as a adquirir novas perspectivas e formas de relacionamento. Gostaria muito de aprender a escrever melhor, pois a expressão escrita é algo que me traz grande prazer. A docência é outro ponto que gostaria de explorar, fazendo uso da minha experiência como formador e facilitador.

De resto, a minha resolução para 2015 foi não fazer grandes resoluções. A única resposta honesta que tenho em relação ao meu futuro é que estou absolutamente convicto que não faço ideia do que vai acontecer, intenções e desejos à parte. E, sinceramente, agrada-me essa perspectiva.

***

*Não gostava de ser interpretado como estando a ser pretensioso ou sectário, embora assuma que não consigo deixar de pensar que posso estar a ser, até porque, reconheço que, em consciência, não consigo colocar estas diferentes actividades ao mesmo nível. Refiro-me apenas ao espaço social, cultural e também comercial, onde estas actividades coabitam.