Mistura Explosiva e Coaches Perigosos

Houve um livro que me marcou e que a observação da realidade portuguesa me ajudou (infelizmente) a confirmar. Estou a referir-me à obra de James O´Shea e Charles Madigan, DANGEROUS COMPANY, publicada, pela primeira vez, em 1997.

A obra de O´Shea e Madigan conta a história real e ilustrada com casos reais, da mistura explosiva entre bad management e smart consultants, isto é de má gestão (e gestores incompetentes) com consultores espertos!

No meu código deontológico, sempre defendi que o trabalho dos consultores, em particular no domínio da estratégia, deveria ser o de trabalhar a informação, fazer as análises, dar recomendações, mas nunca se substituírem, em momento algum, ao decisor, ao gestor que tem de tomar a decisão final.

Em Portugal assistimos ao triste espetáculo de algumas consultoras internacionais, pagas a peso de ouro, se instalarem numa série de empresas, muitas delas concorrentes entre si (!), com implantes permanentes, a fazer permanentes análises e a “tomar decisões” porque os gestores que os contrataram, de incompetentes, ficaram dependentes e aprisionados destes smart consultants, para tudo. Desde tarefas mais nobres de análise estratégica, a fazer apresentações powerpoint e a escrever simples cartas e e-mails, os quais deveriam ter o cunho, o sentir  e a paixão dos gestores, que por incompetência ou pura “calanzise” delegaram nestes “sopeiros de luxo” essas tarefas indelegáveis.

Mistura explosiva. Catástrofe total. Concubinato para perpetuar a conta com o cliente. Vassalagem e falta de coragem para dizer NÃO ao gestor forte e autoritário que quer seguir um caminho que a ética, as boas práticas, a racionalidade da análise não recomendam. PUM, CATRAPUM, PUM...

Uma outra reflexão estival se me ocorreu, não menos nefasta. A de “profissionais” do coaching perigosos, Porque não são BOA GENTE.

Na EEC, Escola Europeia de Coaching, a que pertenço, nos cursos de certificação de coaching, andamos sempre a dizer que o coach deve estar, 100% ao serviço do coachee. Deve aprender a ser egoless, a deixar os seus preconceitos e ideias feitas à porta da sessão de coaching, Deve praticar uma escuta empática. Deve gostar de pessoas e de ajudar as pessoas. Deve ter um comportamento ético irrepreensível.

Ora há por aí muita gente que tendo obtido um diploma profissional, porque frequentou, com assiduidade um certo programa, não tem a personalidade e o carácter para ser um bom coach. Pelo seu egoísmo, pelas suas ideias feitas, pela ligeireza como abordam as sessões de coaching, escutando mal, não conseguindo despir-se dos seus preconceitos e não estando, verdadeiramente, ao serviço do coachee. São os coaches PERIGOSOS, mau carácter que não deveriam estar na profissão.

A minha esperança é que o tempo e o mercado os venha a denunciar e, qual força centrípeta,   os “cuspa” para fora do circuito profissional do coaching. 

Por Vítor Sevilhano


*Publicado na Revista Pessoal nº 139 de Setembro de 2014