Entre Arte e Ciência

Recuperamos um artigo escrito por João Sevilhano em Setembro de 2010 para o site RH Online.

Esperemos que goste e aproveite a leitura.


Entre Arte e Ciência

O Contexto

“Advancing the art, science and practice of professional coaching” é o slogan da International Coach Federation (ICF), a maior, mais antiga e prestigiada entidade internacional na área do coaching.

Na frase consta o que poderá representar uma contradição para muitos, nomeadamente  para aqueles que se interessam e começam a entrar no mundo do coaching. Como pode uma disciplina ser Arte e Ciência simultaneamente? É sobre uma potencial resposta a esta questão que nos centraremos no presente texto.

Numa primeira fase, pensamos ser pertinente tecer algumas considerações sobre a própria pergunta, não fossem estas, as perguntas, a principal principal ferramenta linguística de um coach! Julgamos ser pouco habitual, ou estar esquecida, uma reflexão onde se procure a integração de Arte e Ciência; esta observação poderá estar na base de muitas das dúvidas, desconfianças e cepticismo que julgamos ainda persistir em torno do mundo do coaching. Por outro lado, existem e coabitamos com práticas, estilos e modos de estar no coaching que poderão levar a julgamentos de estranheza, perplexidade ou descrença. Mesmo a reacções com uma componente mais afectiva como a indignação ou mesmo o choque por parte de colegas coaches e, mais grave, de clientes ou potenciais clientes. Mas não é sobre esse aspecto a que chamamos, talvez sendo brandos, pouco profissional e rigoroso do coaching que pretendemos abordar neste artigo.

Acreditamos que estamos a viver uma fase de mudança, ou melhor, que é necessária uma mudança da maneira como vivemos. “Knowledge to Wisdom”é um movimento existente na Internet que reúne académicos, cientistas, gestores com diversas formações de base desde da Filosofia à Engenharia. Este movimento alerta para a necessidade de uma revolução nos objectivos e métodos académicos e científicos. Defendem uma passagem da prioridade da busca de conhecimento para a promoção da sabedoria por meios racionais. Entendem por sabedoria a capacidade de entender o que a vida tem de valor para o próprio e para os outros. A sabedoria, portanto, inclui o conhecimento mas está para além deste.

Numa linha semelhante, Julio Olalla (2009), um coach internacionalmente reconhecido e um dos fundadores do coaching ontológico, identificou o momento em que vivemos actualmente como uma série de crises: uma Crise na Epistomologia, uma Crise na Economia, uma Crise de Desconexão e uma Crise na Aprendizagem.

Ainda uma terceira perspectiva é a apresentada por Jonah Lehrer, no seu livro “Proust era um Neurocientista”, explora a ligação entre Arte e Ciência ao escrever sobre uma série de “pessoas das artes”, onde logicamente se inclui Proust, que se adiantaram e enriqueceram s conclusões e achados científicos posteriores ou contemporâneos das suas obras. Lehrer diz-nos que estes “artistas anteciparam as descobertas da neurociência; (…) descobriram verdades acerca da mente humana - verdades reais, tangíveis - que a ciência está apenas agora a redescobrir. As suas imaginações previram os factos do futuro”.

Perseguindo a Sabedoria

É exactamente este ponto que consideramos interessante e entusiasmante! É a esta “descoberta” que chamamos sabedoria. Numa definição que não é nossa mas com a qual concordamos plenamente, sabedoria é a integração da experiência vivida com o conhecimento. Algo que cremos que a Ciência moderna não contempla.

Enquanto os cientistas começavam a separar os pensamentos nas suas partes anatómicas, estes artistas queriam compreender a consciência a partir do interior. A nossa verdade, disseram, deve começar em nós, no modo como sentimos a realidade
— Jonah Lehrer (2009)

Sem dúvida que os avanços na tecnologia, na ciência e no conhecimento em geral nos proporcionam possibilidades inimagináveis há poucos anos atrás. O mundo global de hoje permite-nos acesso a informação e conhecimento, quase, ilimitados. Além disso o progresso tecnocientifico trouxe grandes benefícios, entre muitos outros, aumentou largamente o nosso campo de acção e actuação. Porém, estas possibilidades sem uma integração e preocupações éticas pecam por nos trazerem tantos, ou mais, males que benefícios.

Até quando continuaremos a causar problemas a nós próprios e ao nosso planeta utilizando as possibilidades que o progresso nos proporciona? A que custo?

Partilhamos a ideia de Lehrer quando diz que “a cultura actual subscreve uma noção de verdade muito limitada. Se uma coisa não pode ser quantificada ou calculada, então não pode ser verdade”. Contudo, fazendo uso do conceito de sabedoria anteriormente descrito, não deixa de ser “irónico, mas verdadeiro: a única realidade que a ciência não consegue reduzir é a única realidade que alguma vez conheceremos” (Lehrer, 2009).

A Ciência moderna, cada vez mais redutora na sua busca de respostas simples para temas complexos, esquece-se da complexidade que a experiência e vivência humanas comportam em si.

Perseguir a sabedoria é, para nós, o mesmo que procurar a integração entre conhecimento e a experiência, é a incorporação do aprendido, é a complementaridade entre Ciência e Arte,  é a aceitação do ócio como algo positivo e útil e não necessariamente como sendo o oposto de negócio (a negação do ócio) promovendo assim o bem-estar e prazer, também no contexto profissional.

Coaching e o Caminho da Sabedoria

O coaching, pelo menos do modo como o concebemos, possibilita este tipo de atitude, de abordagem e de postura. É isso que procuramos implementar na nossa vida e é com este propósito que trabalhamos com os nossos clientes. Com o sentido de possibilitar uma (pelo menos uma) nova perspectiva para a sua vida aumentando assim as possibilidades de acção, obtendo consequentemente, resultados distintos.

Não separamos propositadamente a vida profissional da vida pessoal, apesar do equilíbrio entre estas “duas vidas” ser um tema recorrente e comum nos processos de coaching onde temos estado envolvidos. Esta não-separação resulta desta nova perspectiva, de encararmos a pessoa como um todo indissociável, movendo-se por entre diversos contextos. Cada indivíduo é um sistema complexo, é composto por outros e simultaneamente contribui para a composição destes, como nos explica Edgar Morin (2008).

Somos conscientes de que esta não é a única disciplina ou abordagem que procura a sabedoria, como a concebemos. Sabemos igualmente que outras disciplinas que procuraram aproximar-se e integrar uma faceta mais artística, afectiva, filosófica foram e são criticadas por isso mesmo. O exemplo da própria Filosofia que passou a uma disciplina quase exclusivamente académica, ou da Psicanálise que tanto foi e continua a ser alvo de críticas, desconfiança e preconceitos.

Na nossa perspectiva o coaching surge desta necessidade de integração, de olhar para o indivíduo, para a sociedade, para o mercado, para a cultura de uma forma holística.

Será coaching a melhor palavra? Será o melhor veiculo? Será o melhor modo? Estamos convictos que não será… Que esse ainda está por inventar, ou melhor, que se terá de ir inventando, melhorando e evoluindo constantemente.

Porém, estamos igualmente convencidos, que os resultados que um processo de coaching apresenta, que os frutos e benefícios que uma cultura de coaching proporciona numa organização são inegáveis. E estamos a falar não só de resultados calculáveis, mensuráveis, tangíveis mas também de vantagens intangíveis como o bem-estar, a felicidade, tranquilidade ou a capacidade de liderança.

O coaching, como o vemos, ajuda a trazer a filosofia de volta para as ruas. Pretende que as pessoas se voltam a perguntar pelas “grandes questões”. Que voltem a “conectar-se”, como diria Julio Olalla (2007), com o mundo que os rodeia.

Esta nova forma de estar tem dois eixos importantes: a rua e a vida. A filosofia que hoje faz falta tem de apoderar-se da rua, tem que voltar às praças, aos espaços públicos de congregação dos cidadãos.

A filosofia deve deixar de ser um reduto de alguns poucos iniciados que falam uma linguagem que os demais são incapazes de entender e muito menos de seguir. A filosofia tem de recuperar a rua que perdeu há muito tempo. Ela nasceu na rua e deve voltar a ela.
— Rafael Echeverría (2007)

Referências

  • www.knowledgetowisdom.org
  • OLALLA, Julio (2009). From knowledge to wisdom: Essays on the crisis in contemporary learning. E-BOOK de Newfield Network (www.newfieldnetwork.com)
  • LEHRER, Jonah (2009). Proust era um neurocientista. Lua de Papel.
  • MORIN, Edgar (2008). Introdução ao pensamento complexo. Instituo Piaget
  • ECHEVERRÍA, Rafael (2007). Por la senda del pensar ontológico. J.C. Sáez.